HAM | Entrevista: psicólogas Mirella Rios e Suzane Bandeira
- Publicado em 20/07/2026
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O ambiente de uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) oncológica é marcado por intensas vulnerabilidades e fragilidades emocionais, onde cada palavra, silêncio ou gesto direcionado aos familiares assume um peso significativo. Compreendendo a comunicação como uma dimensão essencial do cuidado, a psicóloga Mirella Almeida de Souza Rios desenvolveu, através do Mestrado em Psicologia e Intervenções em Saúde da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública (EBMSP), uma pesquisa que deu origem ao “Manual de Acolhimento à Família na UTI: Um Guia de Práticas Comunicacionais Humanizadas”. O estudo contou com o apoio da Fundação Maria Emília (FME) e utilizou a UTI do Hospital Aristides Maltez (HAM) como campo de investigação.
Para falar sobre os bastidores desse trabalho — que une rigor científico a uma profunda história de retribuição pessoal —, conversamos com a autora da pesquisa e com a sua orientadora, a Dra. Suzane Bandeira, que também atua na linha de frente da instituição como coordenadora do setor de Psicologia do HAM. Na entrevista a seguir, elas detalham os principais anseios relatados pelas famílias, os desafios éticos e práticos envolvidos na tradução do sofrimento subjetivo em diretrizes assistenciais, e como o cuidado com a saúde mental da própria equipe multiprofissional é indispensável para que a ciência e o afeto caminhem juntos à beira do leito.
Acesse o manual clicando aqui e confira a entrevista completa abaixo:
Mirella Almeida de Souza Rios
HAM: A sua pesquisa de mestrado pela Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública resultou neste importante manual. O que motivou você a escolher especificamente a UTI do Hospital Aristides Maltez (HAM) como o campo para a sua pesquisa?
Mirella: Anos atrás, minha mãe realizou tratamento oncológico nesse hospital, experiência que atribuiu um significado ainda mais profundo à minha decisão. Desenvolver esta pesquisa nessa instituição representa, para mim, também uma forma de retribuir, por meio da produção de conhecimento, todo o cuidado e acolhimento que ela nos ofereceu naquele momento.
Além desse significado pessoal, a atuação da professora Suzane como coordenadora do Serviço de Psicologia constituiu um importante facilitador para essa escolha. Somou-se a isso o meu interesse em desenvolver a pesquisa nesse cenário, impulsionado por experiências anteriores de pesquisa na UTI e pelo reconhecimento de que esse ambiente oferece amplas possibilidades para o estudo da comunicação, especialmente diante das fragilidades e vulnerabilidades vivenciadas pelas famílias durante a internação.
HAM: Lidar com a Oncologia e o ambiente de UTI envolve uma carga emocional muito forte. Como foi, para você enquanto pesquisadora e psicóloga, vivenciar o dia a dia dessa unidade para coletar os dados?
Mirella: Foi uma experiência permeada por desafios, atravessamentos e profundas reflexões, que transformaram não apenas meu olhar como pesquisadora, mas também como profissional e ser humano. Cada história ouvida deixou marcas singulares, ampliou minha compreensão sobre a experiência humana e trouxe ensinamentos que carregarei para sempre, como parte da minha trajetória pessoal e profissional.
HAM: Durante as entrevistas e o convívio, as famílias participantes evidenciaram como gostariam de vivenciar essa comunicação. Quais foram os principais anseios ou as maiores dores que elas relataram em relação à forma como recebiam as informações no hospital?
Mirella: As limitações de alguns profissionais em relação às habilidades comunicacionais e a insuficiência da comunicação foram os principais fatores de sofrimento relatados pelas famílias. Tais aspectos mostraram-se ainda mais impactantes por ocorrerem em um contexto de extrema vulnerabilidade emocional, marcado pelo medo da perda de um ente querido, o que favorece o adoecimento emocional e intensifica o sofrimento vivenciado durante a internação.
HAM: O manual cita sentimentos profundos como dor, impotência e o medo da perda. Qual foi o maior desafio prático ao transformar relatos científicos e teóricos de vulnerabilidade em um guia com “dicas práticas” e acessíveis para a equipe de saúde?
Mirella: O maior desafio foi transformar experiências profundamente subjetivas e carregadas de sofrimento em orientações práticas, sem perder a complexidade e a sensibilidade que elas carregavam. Foi necessário selecionar e sintetizar os relatos das famílias de forma criteriosa, buscando aqueles que melhor dialogavam com a literatura científica e, ao mesmo tempo, expressavam a dimensão humana da experiência vivida.
Além disso, houve a preocupação de traduzir conceitos teóricos para uma linguagem clara e acessível, que pudesse sensibilizar os profissionais de saúde sem assumir um tom excessivamente técnico ou prescritivo. O objetivo era que o manual não fosse apenas um material informativo, mas também um instrumento capaz de despertar reflexão sobre o impacto que a comunicação e as atitudes da equipe têm na experiência das famílias. Encontrar esse equilíbrio entre rigor científico, sensibilidade e aplicabilidade prática foi, sem dúvida, o maior desafio durante sua elaboração.
HAM: O guia aborda desde a “escuta ativa” até pequenos gestos não verbais, como o tom de voz e o contato visual. Na sua visão, qual é o impacto imediato que a aplicação dessas técnicas pode causar na redução do estresse agudo e da ansiedade dos familiares?
Mirella: A comunicação não se restringe às palavras. Os aspectos não verbais, como o tom de voz, a expressão facial, o contato visual e a postura corporal, também comunicam cuidado, interesse e disponibilidade. Em um contexto como a UTI, em que os familiares vivenciam intenso estresse, medo e incerteza, esses pequenos gestos podem produzir um impacto imediato, fazendo com que se sintam acolhidos, respeitados e compreendidos.
Embora essas estratégias não eliminem a dor inerente à situação vivida, elas contribuem para reduzir a sensação de isolamento e desamparo, fortalecem o vínculo entre a equipe e a família e promovem um ambiente de maior confiança. Quando o familiar percebe que está sendo genuinamente ouvido, acolhido e cuidado, seu sofrimento tende a ser amenizado, favorecendo uma participação mais ativa, segura e colaborativa no processo de cuidado.
HAM: Uma parte muito interessante do manual é que ele não olha apenas para a família, mas também para o profissional, sugerindo uma autoavaliação (autoconsciência e controle emocional) antes de falar com os parentes. Por que você considerou fundamental incluir a saúde mental da própria equipe de saúde no manual?
Mirella: Essa reflexão surgiu a partir de uma valiosa contribuição de um dos membros da minha banca de defesa, cuja sugestão se mostrou extremamente relevante para este trabalho. Embora o foco da pesquisa esteja nas famílias, é importante reconhecer que os profissionais de saúde também são seres humanos, atravessados por suas próprias histórias, dificuldades e desafios cotidianos. Quando essas experiências não são adequadamente elaboradas, existe o risco de que repercutam na forma como o cuidado é oferecido e nas relações estabelecidas com pacientes e familiares.
No contexto da UTI, essa atenção torna-se ainda mais necessária. Trata-se de um ambiente em que as famílias vivenciam significativo sofrimento e, por isso, precisam ser reconhecidas como parte integrante dos cuidados em saúde. A qualidade da comunicação, da escuta e do acolhimento pode influenciar significativamente a forma como elas enfrentam esse momento e prestam suporte ao familiar hospitalizado.
Nesse sentido, o autocuidado do profissional deve ser reconhecido como um componente essencial da prática assistencial. Quando o profissional identifica que suas vivências emocionais estão interferindo na qualidade do cuidado oferecido, torna-se fundamental buscar espaços de cuidado e elaboração, como a psicoterapia, a supervisão ou o apoio de colegas da equipe. Cuidar de si também é uma forma de qualificar o cuidado ao outro.
Afinal, em contextos marcados pela dor, pela incerteza e pela possibilidade de perda, cada palavra, atitude ou silêncio pode produzir impactos significativos na experiência dos familiares e dos pacientes. Por isso, uma comunicação acolhedora, empática e consciente depende não apenas de habilidades técnicas, mas também da disponibilidade emocional do profissional para estar presente e oferecer um cuidado genuinamente humanizado. Isso implica reconhecer que, em algum momento da vida, ele próprio também poderá ocupar o lugar de um familiar e desejar ser acolhido com respeito, sensibilidade e empatia.
Dra. Suzane Bandeira
HAM: Como orientadora e conhecedora profunda da realidade do HAM, como foi acompanhar o desenvolvimento dessa pesquisa?
Dra. Suzane: Foi desafiador, pois nem sempre é fácil falar da própria experiência enquanto familiar. Assim, era esperada certa resistência ao agendamento das entrevistas. No entanto, percebemos que, quando a entrevista acontecia, o assunto transcorria de forma fluida, e havia muito a ser dito, pois as experiências pessoais de acompanhar alguém em uma UTI são fortes e mobilizadoras, gerando uma demanda de fala.
HAM: O ambiente hospitalar oncológico possui particularidades muito sensíveis. Sob a ótica da orientação acadêmica, qual foi o cuidado metodológico e ético mais importante para garantir que a pesquisa acolhesse a dor daquelas famílias sem invadir sua privacidade?
Dra. Suzane: A pesquisa foi submetida à apreciação do Departamento de Ensino e Pesquisa (DEP) e do Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) do HAM, órgãos responsáveis por regulamentar e assegurar o cumprimento dos princípios éticos da pesquisa. Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) e foram informados de que poderiam desistir da pesquisa a qualquer momento, sem qualquer prejuízo.
Além disso, os participantes que, ao longo da entrevista, demonstrassem maior mobilização emocional eram acolhidos pela própria pesquisadora e, quando necessário, poderiam ser encaminhados para atendimento pelo serviço de Psicologia.
No entanto, na prática, observou-se que o próprio espaço de escuta proporcionado pela entrevista, ao permitir que os familiares compartilhassem suas experiências tanto em relação ao paciente quanto à comunicação com a equipe de saúde, já produzia um efeito terapêutico e catártico.
HAM: Como coordenadora do setor de Psicologia do HAM, como você enxerga a aplicação prática desse manual na rotina das nossas UTIs? De que maneira ele pode transformar a cultura de atendimento da equipe multiprofissional?
Dra. Suzane: É um manual que convida à reflexão sobre uma comunicação mais adequada e mais humanizada. Penso que, se nos colocarmos no lugar da família, também desejaremos ser acolhidos em nossas vulnerabilidades ao passarmos pela experiência de uma UTI. Assim, acredito que o manual, ao menos, contribui para o debate e para a reflexão sobre a comunicação em saúde.
HAM: A hospitalização de um paciente afeta toda a estrutura familiar, aumentando os riscos de sintomas psiquiátricos e estresse nos parentes. Como o fortalecimento da “comunicação terapêutica” e humanizada ajuda o setor de Psicologia a oferecer um suporte ainda mais integral no ambiente hospitalar?
Dra. Suzane: Se a equipe, como um todo, se compromete com isso, e não apenas a Psicologia, já contribui para prevenir situações relacionadas à saúde mental que tenham a ver com uma comunicação inadequada ou com a falta de gentileza e empatia.
HAM: O manual enfatiza que a comunicação humanizada atua como ponte entre ciência e afeto. Que mensagem você deixa para os profissionais de saúde do HAM sobre o poder que a clareza, a empatia e a presença genuína têm no processo de cuidado?
Dra. Suzane: Colocar-se, genuinamente, no lugar do outro e acolher a pessoa que está em uma situação de maior vulnerabilidade e sofrimento, por meio de uma comunicação acolhedora, clara, empática e afetuosa, reduz significativamente problemas e denúncias éticas. É claro que, às vezes, o profissional também não está em um bom dia e pode estar fragilizado. Nesses momentos, poder contar com a equipe e pedir ajuda a um colega diante de uma situação mais demandante são estratégias que contribuem para lidar melhor com os desafios do cotidiano, que são muitos.

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